Quando o essencial deixa de ser o principal destino da renda, o orçamento começa a contar uma história diferente.
Entender como as famílias de alta renda distribuem seus recursos é mais do que uma curiosidade sobre hábitos de consumo. É uma ferramenta para empresas que atuam com produtos premium, serviços, investimentos, imóveis e experiências.
Os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2017-2018), do IBGE, oferecem um primeiro retrato. Famílias com rendimento acima de 25 salários mínimos apresentavam despesas médias de R$ 27.234 por mês. Atualizado pelo IPCA, esse valor corresponde a aproximadamente R$ 42,3 mil mensais em setembro de 2026.
O mais interessante, porém, está na composição dessa despesa.
Quando a renda muda, o orçamento também muda
Nas famílias de maior renda, despesas essenciais passam a representar uma parcela proporcionalmente menor do orçamento. Habitação responde por cerca de 22,6%, transporte por 15,3% e alimentação por apenas 7,6%, enquanto na média das famílias brasileiras esses itens têm pesos significativamente maiores.
É uma manifestação prática da chamada Lei de Engel: à medida que a renda cresce, a necessidade de destinar recursos ao consumo básico diminui proporcionalmente.
E o dinheiro que deixa de ser absorvido pelo essencial abre espaço para outras escolhas: educação, saúde, patrimônio, lazer, serviços e experiências.
São Paulo: um segundo retrato
Um levantamento da Private Pay oferece outra perspectiva. Em 2013, as famílias de alta renda de São Paulo gastavam, em média, R$ 32.777 mensais com despesas básicas. Atualizado pelo IPCA, o valor chega a aproximadamente R$ 66,2 mil por mês.
A composição também chama atenção: alimentação representa 11%, educação 9%, funcionários domésticos 7% e impostos como IPTU, IPVA e INSS, 5%.
Já viagens, entretenimento e restaurantes representam 18% do orçamento — cerca de R$ 143 mil por ano em valores atuais. Compras de artigos pessoais acrescentam outros 13%, aproximadamente R$ 103 mil anuais.
Os dois recortes não são diretamente equivalentes, mas apontam para uma mesma transformação: à medida que a renda aumenta, o consumo deixa de ser predominantemente funcional e passa a incorporar mais serviços, conveniência, experiências e escolhas pessoais.
O novo luxo: menos “ter”, mais “viver”
Os dados de mercado reforçam essa mudança.
O mercado de luxo brasileiro ultrapassou R$ 100 bilhões em 2025, e estimativas para 2026 apontam para um mercado entre R$ 120 bilhões e R$ 130 bilhões.
O crescimento não está concentrado apenas em bens materiais. Automóveis premium, hotelaria, gastronomia, viagens personalizadas e experiências passaram a ocupar espaço crescente.
É uma mudança interessante de comportamento: o luxo deixa de ser apenas aquilo que se possui e passa a ser também aquilo que se vive.
Millennials e geração Z já representam parcela relevante desse consumo, indicando que essa transformação não é apenas conjuntural. Existe uma mudança geracional na maneira de perceber valor.
O que isso significa para empresas?
Para quem desenvolve produtos, serviços ou investimentos voltados à alta renda, compreender onde o dinheiro é gasto é tão importante quanto saber quanto dinheiro existe.
Uma família que possui renda elevada não necessariamente procura apenas produtos mais caros. Pode procurar tempo, conveniência, exclusividade, segurança, personalização e experiências.
Essa diferença muda a forma de desenvolver produtos, definir preços e construir posicionamento.
No mercado premium, portanto, a pergunta deixou de ser apenas:
“O que o cliente de alta renda pode comprar?”
A pergunta mais interessante passou a ser:
“Por aquilo que esse cliente está disposto a trocar seu dinheiro, seu tempo e sua atenção?”
É nesse espaço entre renda, comportamento e percepção de valor que surgem algumas das melhores oportunidades para empresas e investidores.
Fontes: IBGE/POF, IPCA, Private Pay e estudos de mercado citados. Os valores atualizados representam estimativas e os diferentes levantamentos possuem metodologias e períodos de referência distintos.

