A Selic caiu de 15% para 14% entre 2025 e agosto de 2026. Seria de esperar um alívio imediato para as empresas endividadas. Os números, porém, mostram outra história: o primeiro trimestre de 2026 registrou 194 pedidos de recuperação judicial, o maior volume já visto para um início de ano no Brasil. E 2025 fechou com 2.466 empresas em recuperação judicial, recorde da série histórica desde a criação do instrumento pela Lei 11.101/2005.
A explicação está numa defasagem que se repete há duas décadas: entre o momento em que os juros sobem (ou caem) e o momento em que isso aparece nos pedidos de recuperação judicial, passam-se em média de 12 a 24 meses.
Uma correlação real, mas nunca imediata
Olhando a série de 2005 a 2026, o padrão se repete em pelo menos três ciclos. Em 2015-2016, a Selic em 14,25% coincidiu com a pior recessão em décadas, e o resultado foi o primeiro grande recorde da série: 1.863 pedidos em 2016, alta de 44,8% sobre o ano anterior, segundo dados da Serasa Experian. Já entre 2017 e 2019, com a Selic caindo até a mínima histórica de 4,5%, os pedidos recuaram de forma moderada — como seria de esperar.
O ciclo mais recente é o mais didático. A partir de 2021 a Selic subiu quase sem interrupção, de 2% para 13,75% em 2022 e depois para 15% em 2025. Mas os pedidos de recuperação judicial não reagiram de imediato: 2021 e 2022 ainda registraram números relativamente baixos. Foi só a partir de 2023, com os juros altos sustentados por mais tempo, que a defasagem virou recordes sucessivos — 1.405 pedidos em 2023, 2.273 em 2024 e 2.466 em 2025.
O ano em que a regra quase não valeu: 2020
A pandemia é o ponto fora da curva de toda a série. Apesar da pior contração do PIB em décadas, a Selic caiu para 2% — mínima histórica — e os pedidos de recuperação judicial na verdade recuaram em relação a 2019. Linhas emergenciais de crédito, como Pronampe e BNDES, moratórias de dívida e mudanças temporárias na legislação represaram o estresse financeiro das empresas, mas não o eliminaram. Parte da conta apareceu depois, alimentando os recordes de 2023 a 2025.
O que isso significa para quem avalia empresas hoje
Para due diligence, valuation e decisões de M&A, esse comparativo traz três leituras práticas. Primeiro, o efeito da taxa de juros sobre o risco de uma empresa é defasado: um cenário de Selic alta hoje pode pressionar o caixa de uma companhia por vários trimestres antes de qualquer sinal formal de crise aparecer no radar. Segundo, políticas públicas de crédito emergencial podem adiar — não eliminar — esse estresse, como mostrou 2020. Terceiro, a Selic é apenas um entre vários indicadores relevantes: inadimplência de pessoa jurídica, spread bancário, concessão de crédito e o ciclo de cada setor (agro e varejo lideraram parte do recorde de 2024-2025) ajudam a explicar o que a taxa de juros isolada não explica.
Com a Selic ainda em processo de queda e o volume de recuperações judiciais em patamar recorde, o cenário de 2026 pede atenção redobrada na avaliação de empresas e na análise de risco de crédito e investimento. Entender essa defasagem entre juros e crise é o que separa uma leitura superficial de um valuation robusto.
A Brasil Valuation acompanha esses indicadores para apoiar empresários, investidores e gestores financeiros em decisões estratégicas de valuation, fusões e aquisições e viabilidade econômico-financeira. Fale com um de nossos especialistas e entenda o que esse cenário significa para o seu negócio.

